Sexta-feira, 14 de novembro de 2025.
Sabe quando tu entra nas redes sociais e parece que todo mundo está num megafone?
Pois é. Às vezes eu tenho a impressão de que a internet virou um grande auditório onde cada pessoa segura uma bandeira e grita, como se sua própria sobrevivência dependesse disso.
Semana passada, o megafone era o veganismo.
Hoje, o grito é a dieta carnívora.
E eu fico olhando tudo isso pensando: “Não é possível que comer tenha virado uma guerra santa.”
Porque antes de escolher o teu time… existe um corpo, que não é extremista - muito pelo contrário: o corpo não tem bandeira, ele só quer paz e equilíbrio.
E quando eu falo isso, embora com poesia, não é uma poesia vazia: é fisiologia pura.
Só que eu prefiro te dizer com poesia, porque a poesia alcança onde as brigas não chegam.
Nosso corpo é como um veículo flex. Lê isso de novo, por favor.
Igual aqueles carros que funcionavam tanto a gasolina quanto a álcool, lembra?
Não precisava escolher um único combustível e morrer por ele, bastava abastecer com o que tinha, seguir viagem e confiar no motor.
A natureza fez a gente assim também, e não porque é “bonitinho”, mas porque a vida sempre exigiu adaptabilidade.
Teve estação de fruta abundante, e estação de quase nenhuma fruta.
Teve mês de caça boa, e mês de vento frio e barriga roncando.
Teve época de raízes, época de gordura, época de pouco, e época de fartura.
Sempre foi uma dança, nunca uma regra rígida.
O corpo aprendeu a sobreviver à sazonalidade de tudo, não aos extremismos, e é por isso que eu olho para esses discursos radicais e penso: vai dar certo pra quem?
Porque não existe uma alimentação universal que sirva para todas as pessoas, todos os biotipos, todas as histórias, todos os metabolismos, todas as fases da vida.
Não existe - e nunca vai existir.
Outra coisa que pouca gente fala: não havia agricultura de precisão, nem processamento, nem refino, nem embalagens com 32 ingredientes que você não consegue pronunciar.
O milho era milho. Não era farinha de milho, nem flocos, nem misturado com açúcar para dar “cor e textura”.
Açúcar? Era raro, caro, festivo.
Era usado como se usa perfume: só em ocasiões especiais.
Hoje, o açúcar é o insumo mais barato da indústria, por isso está em tudo, até no salgado onde não faz sentido algum estar.
Até no que tu jura que não tem açúcar.
E aí, comendo o que nunca foi natural para o corpo humano, as pessoas começaram a buscar compensação, com regras rígidas.
Mas não se trata de regras e sim de coerência com a biologia.
E tem mais um ponto que eu quero falar contigo, porque isso pesa muito e quase ninguém diz: tem interesse político por trás de pesquisas, tem lobby, tem financiamento, tem marketing agressivo.
Não é teoria da conspiração: é jogo!
Negar isso é inocência. E o marketing adora uma verdade absoluta, porque verdade absoluta vende:
“Coma assim e você será maravilhoso."
“Coma assado e estará errado.”
“Ou você segue meu método ou você está contra mim.”
E é esse tipo de narrativa que prende as pessoas em narrativas (inclusive sobre dietas) que não fazem sentido para elas.
Eu não estou aqui defendendo carne, veganismo, nem nenhum extremo.
Eu sou onívora, sim. Mas antes disso, eu sou intuitiva.
Eu escolho o que me faz bem, o que me equilíbra e me dá energia.
E as minhas alunas?
Cada uma tem sua verdade: uma não consome iogurte ou queijo de jeito nenhum, outra quase não come carne, outra ama as raízes.
E está tudo bem, mesmo.
Porque não é sobre a bandeira que tu levanta. É sobre o silêncio do teu corpo.
Sobre aquela sensação interna que te diz: “Isso me faz bem“ ou "isso está pesado demais.”
Então, se eu pudesse te deixar só com uma ideia hoje, seria essa: o corpo humano nasceu para a vida real,
não para a timeline.
Ele nasceu para comer com sazonalidade, não com extremismo.
Nasceu para ajustar, testar, sentir, escolher. Mas não para gritar ou para aderir a um rótulo como se estivesse assinando contrato vitalício.
No final das contas, comer é um diálogo íntimo, e quando esse diálogo é respeitado, o corpo responde com inteligência. Sempre respondeu.
E talvez - só talvez - eu deva repetir aqui que a maior rebeldia que ainda existe nesse mundo barulhento, seja ouvir o próprio corpo, em vez de escolher uma entre as modas alimentares da semana.
“Todo mundo tá fazendo isso, menos tu.”
“Olha só, essa é a tua última chance.”
“Se tu não entrar agora, vai ficar pra trás.”
“Isso aqui é a oportunidade da tua vida.”
Me conta qual dessas frases tu ouviu hoje?
São ganchos, lobbies, estratégias - algumas honestas, outras nem tanto.
Elas funcionam porque tocam exatamente no medo mais humano que existe: o medo de ficar de fora, de escolher errado, de escolher diferente da maioria.
E é claro… pode existir honestidade nisso tudo? Claro que sim.
Mas, sinceramente, tu acredita mesmo que todo esse barulho é porque está todo mundo agindo pro bem?
Se fosse, não precisava tanta gritaria, nem precisava dessa urgência inventada e dessa pressão artificial.
Pensa comigo: as pessoas estão se acordando agora, depois de anos consumindo coisas que não faziam bem, e estão tentando correr atrás do prejuízo, tentando fazer diferente, tentando se recuperar. Isso é maravilhoso.
Mas é justamente aí que entra em cena quem quer lucrar a qualquer custo: no desespero, na culpa, na pressa.
E é por isso que o discurso vira guerra - porque o barulho vende mais do que o equilíbrio.
Conte comigo, Betânia Nunes da Silva.
Gastróloga e Naturopata.
