Segunda-feira, 8 de dezembro de 2024.
No ano passado, o Rio Grande do Sul viveu uma chuva que ninguém esquece. Eu sou da parte alta da cidade, longe da rota das enchentes.
Mas a força da água foi tão brutal que expôs um problema estrutural que já existia e só estava esperando uma tempestade pra aparecer.
Por isso, tivemos que sair. Não por causa dos tristes alagamentos que ocorreram em vários locais, mas pela violência daquela chuva.
Naquele momento, Martín tinha 2 anos e meio, Brena tinha 30 dias. Foi um momento de mistura de sentimentos que, desculpem mas, não consigo explicar em palavras.
Nosso destino foi uma moradia antiga, emprestada. E por isso mesmo, Alan e eu escolhemos, por respeito, não alterar nem tocar em nada. Fizemos apenas os ajustes necessários para tornar o imóvel habitável.
Mas, é impressionante como um ano sem mexer em absolutamente nada, mexe mesmo é com nós por dentro, vai nos mostrando como coisas que parecem tão simples, são na verdade, doses de alegria diárias.
Essa semana, voltamos para a nossa casa — a verdadeira — e foi como respirar depois de muito tempo segurando o ar, sabe?
Eu me encantei com coisas que nunca pensei que fariam falta: mexer numa parede, escolher a cor de uma janela, ver meu marido abrindo um canteiro na terra. Coisas simples, quase bobas, mas que carregam um significado profundo.
E voltamos transformando tudo.
A reforma foi enorme, criativa, com alguns improvisos e muitas transformações. O resultado? Está parecendo que moro num sítio!
E o mais curioso: o espaço diminuiu, mas a sensação é de que ficou maior. Bem maior.
E não fui só eu que senti essa mudança, todos nós sentimos, principalmente o Martín.
No dia da volta, Martín ficou tão estressado que alterou todo o seu comportamento (crianças são sensíveis ao ambiente, as atípicas um pouco mais).
A mudança foi no sábado, e no domingo, ele dormiu o dia inteiro. Acordava, tomava água (ele sempre foi “o cara da água”, acho que puxou isso de mim), e dormia de novo, sem nenhum sinal de problema. Só o corpo e a mente precisando desacelerar.
E então, quando despertou de verdade, algo lindo aconteceu: ele lembrou de tudo!
Lembrou do lugar onde ficavam seus brinquedos, dos cantos da casa, de onde ele sentava pra brincar.
Parecia que a mente dele tinha sido reiniciada. E o mais importante: ele está feliz, solto, seguro.
Aqui ele corre, pula, gasta energia, sem perigo de cachorro invadindo, nem risco dele fugir para a rua. Ele voltou para um lugar que é dele.
E eu também. Só agora percebo o quanto este lugar acolhe.
E teve mais surpresas na chegada: a casa nos esperou viva.
O pessegueiro estava carregado de frutas, pesando os galhos.
A horta cresceu sozinha por um ano inteiro, escondida sob um mato de mais de um metro. Mas por baixo, havia vida.
As folhagens encontraram sozinhas o caminho para o sol e para a água. Era como se a natureza tivesse cuidado de tudo enquanto eu estive fora.
E o sol… ah, o sol.
Eu sempre desejei uma casa com muita luminosidade, e sempre tive o desejo de acordar cedo, mas acordar cedo era difícil. Aqui, com a reforma, a luz entrou pela casa inteira: pelo corredor, pelos quartos, pela cozinha.
E essa luz fez algo comigo que eu não sabia que a luz podia fazer: há uma semana, estou acordando cedo, com leveza e sem esforço. Simplesmente abro os olhos e levanto, parece que a casa, que o novo dia está me chamando.
Voltar para casa não foi só mudar de endereço.
Foi uma mudança de ritmo, de mentalidade, e até de ritmo de respiração.
Foi recuperar o direito de transformar, de pertencer, de acordar com o sol entrando pela janela, lembrando o quanto este lugar é acolhimento e segurança.
E antes de terminar essa história, tem uma última coisa que preciso registrar.
Na minha última semana na outra casa - quando eu já estava encaixotando roupas, desligando a internet, retirando cortinas e fechando gavetas - algo inesperado aconteceu.
No meio do caos, da poeira, das caixas e das crianças correndo, eu recebi um convite que me deixou sem palavras: a oportunidade de apresentar o meu trabalho no 3° Simpósio Internacional de Naturopatia e Acupuntura da Unilogos.
Eu tive apenas alguns dias para criar, escrever e entregar um projeto. E mesmo assim, no meio da mudança, do barulho, do aperto, do emocional remexido… eu aceitei.
Porque algo em mim sabia que essa era a forma mais bonita de encerrar aquele ciclo: mostrando que, apesar de tudo, eu ainda tinha força, tinha voz, tinha entrega e que Deus estava me mostrando isso.
No meio da transição, eu escrevi uma palestra deliciosa, profunda, cheia de verdade. Era como se o universo estivesse me dizendo:
“Tu está indo pra casa, Betânia. E olha tudo o que tu é capaz de carregar junto.”
Obrigada pela leitura, pelo carinho! Betânia.
